19 de jan de 2009

Conto: O Mestre e a Vaca na Colina

Nuvens. Como poderiam os homens tocá-las? Do que seriam elas feitas?

- Ah, esses deuses caprichosos.

Assim pensava Lei, antes de tropeçar da pedra que seu mestre lhe avisou para tomar cuidado. As nuvens devem ser feitas de sonhos, por isso Lei se sentiu tão avoado naquela hora, pelo menos é nisso que ele se apoiava para convencer o homem grande e forte que enfaixava seu tornozelo.
Há muito eles caminhavam juntos. Lei sequer sabia seu nome. Não ousou perguntar e nem mesmo houve demonstração de que ele quisesse que Lei o soubesse. Apenas um olhar seco e distante. Um pouco de água para aquela criança que errava pelo vilarejo semi-abandonado. Salteadores haviam posto fogo em tudo. Matado os homens, os idosos. Seqüestrado as mulheres e feito as crianças como mercadoria para barganha. Lei também não sabia de onde ele veio, nem para onde o estava levando.
O manto sujo anunciava que já era hora deles pararem na margem de algum rio para fazer a limpeza do corpo e das roupas.

- Mestre, de onde vem esse rio? Digo a água dele.

- Interessante. Por que o pequeno Lei sempre questiona sobre as coisas grandes? Nunca pára e se questiona de onde vem a água dele mesmo quando urina.

Lei não obtinha respostas muito diretas de seu mestre. Talvez essa fosse a função deles. Dar respostas que não diziam nada, para fazer o discípulo questionar corretamente.

- Quando conseguimos elaborar a pergunta certa, é porque ela é tão perfeita que, sozinha, já dá a resposta.
Então Lei, mesmo sem respostas claras e nem se preocupando muito com o seu xixi, seguia o mestre por onde quer que ele passasse. Vilarejos podiam ser hospitaleiros ou hostis, mas o mestre sempre arrumava uma maneira de encontrar abrigo e comida. Às vezes em troca de algum trabalho braçal. Coisa que Lei sempre detestou.
Conforme foi crescendo, Lei começou a se questionar do por que seguir aquele homem. Seus passos levariam a qual caminho?

- O pequeno Lei está ficando grande, não está? Poderia socar esse arroz com mais força, não?

- Eu não gosto de socar arroz. Deveríamos ter partido! O dono da casa disse que o senhor não precisava retribuir.

- Não mesmo? Hm... Que bom! Então continue aqui que eu vou tirar um cochilo.

- Espere mestre! Como assim?!


- Eu não comi nada, por isso não preciso retribuir mesmo. Mas você abriu meus olhos! Termine logo para partirmos.

Talvez Lei não fosse tão mais criança para contemplar as ações do seu tutor de maneira tão inquestionável. As marcas e as atitudes da adolescência já borbulhavam dentro do pequeno homem, como o peixe que cozinhava na panela.

- Quero aprender a lutar!

O mestre continuava mexendo o ensopado.

- Para quê?

- Para me defender!

Mais algumas ervas e uma provada do caldo quente.

- Hm... Está ficando muito bom.

- Eu vou me tornar um homem! Preciso ser forte!

- É mesmo? Então prove do meu ensopado!

- Você não entendeu mestre? Preciso aprender a lutar!

O mestre decide dar atenção.

- Entendi. Você pretende me derrotar. Ser forte o suficiente para me superar!

- É claro que não mestre! Nunca pensaria nisso!

- Ah, então não tem porque te ensinar a lutar. Coma sua sopa.

Lei era tomado por pensamentos diversos e, às vezes, conflitantes. Queria abandonar seu mestre. Talvez arrumar um emprego em algum dos vilarejos por onde passavam diariamente, mas deixar seu mestre parecia algo terrível demais para o menino que ainda habitava o rapaz.
Numa dessas vilas, saqueadores, presença recorrente nessa época de caos, chegaram no momento em que o mestre e seu jovem aluno deixavam o local.

- Ei você de chapéu! Saia do meu caminho.

O mestre nada respondeu, mas também não se mobilizou pela ordem.
- É surdo seu bastardo? Quer perder a cabeça?!

O grupo de cinco homens sujos, montados em cavalos maltratados, se divertia enquanto aterrorizava os vilarejos pelos quais passavam, espalhando sangue e medo.


A lâmina da foice apontada contra o rosto não foi suficiente. O olhar sereno e penetrante aos poucos destruía a fúria ignorante do cavaleiro. O cavaleiro fora um nobre guerreiro antes, mas isso não valeu de nada quando o trono do seu mestre foi usurpado. Era um foragido. Fome, frio, medo, ódio, indignação pela própria condição de pária. Tudo misturado em uma única manifestação bruta de violência, anulada por um espírito maior.

- Tsc. Vamos embora!

- O quê?! Chefe!

- Cale a boca e vamos!

Depois que os bandidos fugiram o mestre tornou a caminhar calmamente, mas não sem a tagarelice do seu aluno.

- Mestre, o que foi isso?

- Eles queriam luta. Eu não.

- Mas, eu não entendo! Eram em maior número! Eram mais fortes e estavam armados.

- Sem espírito. Corpos sem espírito nunca venceriam um guerreiro. Pelo menos um deles ainda possuía alguma coisa dentro de si, por isso fugiu.
Afastados da entrada da vila os cavaleiros seguem seu líder, que tira da sua montaria forças que quase não tem para deixar o local rapidamente.
Em outras épocas eles eram mestre e discípulo, e o cavaleiro também insistia em aprender a lutar.
O mestre caminhando com seu jovem pupilo se lembrara dele também, mas, no inferno daqueles tempos vidas já não valem muito, tão pouco laços de amizade há tanto abandonados.
As estações passavam cada vez mais depressa para os dois companheiros. A confiança de Lei em seu mestre aumentara um pouco por conta do caso dos salteadores. E isso foi reforçado pelos movimentos que ele, finalmente, decidiu demonstrar. A empolgação de Lei ao perceber que poderia quebrar pedaços de maneira e pequenas pedras era tratada com total apatia pelo mestre.

- São só pedaços de madeira e de pedra, Lei.

- Mas elas são resistentes! E eu consigo quebrá-las. Estou me tornando forte!

- Lei, se você conseguisse quebrar o curso de um rio, eu ficaria verdadeiramente surpreso.

Entre andanças e ensinamentos, Lei e seu mestre passaram por um campo, aparentemente, abandonado. O local poderia ser confundido com cemitério, tamanho número de animais mortos espalhados pela terra árida, sem vida. Tudo não fosse uma pequena construção de madeira e palha e uma magra e deprimente vaca presa ao chão com uma pequena corda de sisal.
O mestre observa ao longe e resolve mudar sua rota descendo a íngreme encosta ao invés de continuar pela trilha original. Ele é acompanhado pelo aluno, mesmo Lei estando confuso sobre o que seu mestre poderia querer ali.

De perto o cenário de desolação e abandono era ainda pior. O mestre bate a porta da pobre construção, de onde um cheiro fétido e acre de sujeira humana quase faz Lei decidir ficar do lado de fora.

- Olá! Sou um andarilho. Este é o meu discípulo. Procuramos por abrigo e comida.

Lei fica assombrado com a investida do mestre. Ela era igual a todas as outras, não fosse o fato de terem, há poucas horas, saído de uma estalagem, bem descansados e alimentados
.
- Ora, mas é claro viajantes! Entrem.

Os donos da casa estavam em um estado tão lastimável que era mais fácil os dois andarilhos terem alguma coisa a oferecer do que eles. Lei tenta questionar seu mestre com o olhar, o que é nitidamente ignorado. Os hóspedes são acolhidos com carinho e festividade dentro da casa.

- Sabe, não costumamos receber visitas, aqui é um local abandonado pelos deuses.

- Sim, mas por piedade ainda temos um pouco, e não nos censuramos de dividir com quem também necessita.

- Ficamos muito gratos pela sua hospitalidade.

As crianças esqueléticas causam muita pena a Lei, são várias, uma delas está deitada em algumas palhas espalhadas pelo chão grudento de madeira podre. Seus olhos fundos e perdidos demonstram se tratar de uma criança muito doente.
Lei pensa em abrir sua bolsa para pegar algumas ervas e, com elas, tentar produzir algum medicamento, coisa que o mestre havia, habilmente, lhe ensinado a fazer. Os segredos da cura estavam começando a ser desvendados por Lei, porém o mestre, discretamente, lhe segurou o punho, o jovem não conseguia soltar-se de jeito nenhum, embora o mestre continuasse conversando calorosamente com os donos da casa.
Lei se desespera, mas não há nada que consiga fazer para cumprir seu intento. Não tornara-se forte o suficiente para tal feito.

- Bem, infelizmente, temos muito pouco, como vocês devem ter percebido, essas terras são amaldiçoadas, nada consegue crescer aqui. Demônios rondam essas bandas.

- Sim e todos invocados pelo vilarejo do lado! Tudo porque nossas criações eram mais fortes e mais belas. Porque nossas plantações cresciam o ano todo!

- Tudo o que nos restou foi essa vaca, ela nos fornece a única comida que podemos ter. O Leite.

- Aceitamos um copo de leite de bom grado então.

O mestre se curva com reverência, e obriga Lei a fazer o mesmo gesto.
Eles bebem do leite servido, enquanto as crianças magras salivam os goles potentes que o mestre dá no jarro. Lei mal consegue colocar a caneca na boca, enquanto seu mestre acaba com aquilo que o dono da vaca dizia ser tudo o que o animal consegue produzir durante dois dias.
Lei segura sua raiva contra seu mestre. Ele tenta oferecer sua caneca para as crianças, mas o mestre percebe e a toma de suas mãos, dando a última golada sedenta daquele precioso e escasso alimento da família.


O mestre pede licença para descansar, os donos oferecem suas camas de palha para o vil hóspede e seu aluno. Lei tenta negociar com o incompreensível tutor, mas quando da por si, o homem já está roncando como um porco.
Lei mal consegue pregar os olhos dentro daquele quarto. Ele cutuca seu mestre, sem conseguir acordá-lo a princípio. De tanto insistir, conseguiu fazer com que ele abrisse um dos olhos sonolentos.

- O que foi Lei?

- Por quê?! Por que está fazendo isso, mestre?

- Vá dormir Lei! Você precisa descansar! Amanhã temos trabalho a fazer.

- Trabalho?

- Sim, vamos ter um funeral.

O mestre acorda com o choro da família e do próprio Lei, que, no outro aposento consola a família pela morte da criança doente. Lei, ao perceber o mestre coçando a barriga e bocejando lhe direciona um olhar de assombro e ódio.
Eles embrulham a criança usando a cama onde ela tentava se recuperar. Lei chora de raiva a cada vez que seu olhar cruza com o do seu mestre. Como agradecimento pela hospitalidade eles se prontificaram a realizar todo o ritual fúnebre da pequeno falecida.
Quando o sol se pôs, depois que as cinzas da criança juntaram-se às carcaças dos animais e às plantas apodrecidas daquele campo esquecido pelos deuses, todos retornam para a velha casa, de onde os dois intrusos partem na calada da noite.

- Mestre? Por que estamos saindo escondidos?

- Silêncio!

O mestre se aproxima da única coisa que poderia garantir a sobrevivência da família. A última esperança dos moradores daquela casa apodrecida. O mestre remove a corda do chão e começa a guiar a vaca para longe.

- Ei mestre! Pare!

- Fica quieto!

- Não mestre, o que está fazendo agora?

- Se não fizer silêncio eu juro que seus dentes vão ficar exatamente como as pedras que você gosta de quebrar

A ameaça não surtiu efeito e Lei não agüenta mais tanta injustiça. Ele parte para cima do mestre usando o máximo do seu espírito e da sua força.
Subitamente, Lei é detido com um chute no meio do estômago, que o deixa no alto por alguns instantes tamanha força nas pernas que o mestre possui. Lei cospe um punhado de sangue antes de cair sem ar.

- Bom, se por um lado você é burro, pelo outro você é capaz de fazer seu espírito forte o suficiente para querer me matar. Então espere aqui que eu vou dar mais alimento para sua fúria.

Lei, imediatamente se lembra da conversa à beira de uma fogueira, há alguns anos.

“- Entendi. Você pretende me derrotar. Ser forte o suficiente para me superar!

- É claro que não mestre! Nunca pensaria nisso!
- Ah, então não tem porque te ensinar a lutar. Coma sua sopa.”

A impotência perante a situação deixa Lei em um estado de horror. O mestre se distancia em direção a uma íngreme colina de pedras pontiagudas.
Lei tenta gritar, mas o ar ainda não circula direito no o seu peito, isso faz com que ele se sinta dentro daqueles pesadelos onde nada pode ser feito. O som sai sussurrado demais para que alguém possa ouvir, Lei espera que seu apelo chegue ao seu mestre, mas sabe que, mesmo assim, seria inútil.

- Por favor, mestre... Pára... Não faz isso.

O mestre empurra a vaca, que não solta mugido algum enquanto seu corpo é rasgado e quebrado pelas pontiagudas e mortais rochas, dezenas de metros abaixo. Instantes depois uma chuva forte cai sobre Lei, fazendo com que a terra malcheirosa de morte e sofrimento se torne um verdadeiro lamaçal de putrefação e decadência. A figura sombria do mestre vem em sua direção. Assombrosa e terrível. Ele segura o corpo do incapacitado jovem nos ombros enquanto termina de se evadir do local, sem palavra, pena ou reconsideração. Lei desmaia segundos depois. Quando acorda, Lei percebe estar em um lugar escuro e úmido. Ao acostumar os olhos com a parca iluminação nota uma fogueira e uma panela, de onde sai um cheiro bem característico de...

- Ensopado de Peixe, Já estava na hora, Lei.

Lei pensa estar acordando de um terrível pesadelo, mas, no momento em que tenta erguer o tronco para se levantar, uma súbita pontada poderosa de dor faz com que solte um grito abafado. Lei tinha algumas costelas quebradas e a sensação dos ossos partidos dilacerando sua carne por cima dos pulmões é uma coisa que deixaria até um gigante imóvel.
- É bom você ficar parado. Enfaixei seu tronco e apliquei um emplastro. Vai ficar algumas semanas sem se mexer direito, é bom se acostumar.

- Por que fez aquilo mestre?

Embora até mesmo respirar seja doloroso demais, Lei junta tudo o que possui de energia para tentar compreender a atitude do seu tutor.

- Porque você pulou para cima de mim como um louco! Oras!

- Não... A família. Por que fez aquilo?

O terrível professor continua a mexer seu caldo.

- Por que não me deixou salvar a criança?

- Salvar? Ora, não é possível salvar um corpo cuja alma lutava para se libertar. A criança não tinha salvação.

- Você não me permitiu ao menos tentar.

- Essas ervas são caras e difíceis de encontrar. Não valeria a pena desperdiçá-las com uma criança moribunda.

Indignação também alimenta o espírito da cólera. Contra a insuportável dor, Lei vence ao conseguir se sentar e esbravejar.

- O quê?! Como pode dizer que a vida de uma criança não vale à pena?

- Hm... Falta sal.

- Você matou a única fonte de comida deles! Eles compartilharam com a gente tudo o que possuíam e você teve a coragem de matar o animal? Seria melhor tê-los assassinado ali mesmo! Qualquer coisa seria melhor do que morrer de fome!

- Lei, qualquer morte seria melhor do que viver daquele jeito. Amaldiçoando os deuses pela sua própria incompetência. Culpando os outros pela sua preguiça. Não fui eu ou você quem deixou a criança morrer. Foram eles.

- E, ao invés de ajudá-los, você os pune?

- Saiba que a justiça e o desígnio dos deuses deve vir aos homens através das mãos dos mestres. Se você acha que eles foram injustiçados então se torne forte o suficiente para vingá-los.

Em nenhum momento o mestre deixou de prestar atenção a sua sopa de peixe. Lei começa a sentir demais a conseqüência da afronta contra o que seu corpo lhe ordenava fazer. Perde a consciência, mas não antes de ouvir seu mestre comentando para si mesmo.

- Ah, agora está bom de sal.

Durante muitos dias não trocaram mais palavras. Lei acordava poucas vezes e sempre encontrava uma tigela com ensopado ou alguma outra comida perto de si. Do lado de fora da caverna, Lei notava seu mestre treinando movimentos em um campo verde. A estação parecia boa. Os golpes eram lentos e compassados. As folhas espalhadas pela terra nem ao menos se mexiam enquanto o mestre passeava suas pernas em uma dança belíssima de se observar. Mas Lei sabia que aqueles movimentos não tinham nada de suavidade. Eram golpes certeiros e mortais. Lei já viu certa vez quando seu mestre lhe demonstrara um chute ascendente. O golpe começava ainda no chão e se elevara muito alto, até o corpo ficar totalmente ereto e de cabeça para baixo. O arco de pedra perto do local onde o mestre estava lhe exibindo aquele movimento foi atingido pelo chute e totalmente destruído. Lei nunca imaginara que tamanha força física pudesse ser concentrada em um único ataque. O mestre lhe explicara que não era só o corpo que atacava, era também o espírito. Por isso da empolgação de Lei ao conseguir quebrar pedras pequenas e pedaços de madeira.
Com a chegada da estação fria Lei conseguia caminhar melhor e sua primeira ação ao deixar a gruta foi a de treinar sozinho seus próprios movimentos. Observara minuciosamente cada golpe. Cada seqüência. Cada contra-ataque simulado de seu mestre. E, mesmo em menor escala, devido à lenta recuperação dos ossos do seu tórax, conseguia reproduzi-los em uma crescente perfeição.
O mestre nada dizia quanto aos treinos solitários do rapaz. Apenas deixava Lei a vontade quando ele se dispunha a sair para treinar acomodando-se dentro da gruta e preparando seus ensopados. Aos poucos os movimentos de Lei tomavam forma, força e velocidade. Ele sentia a força retornar para seu espírito com cada vez mais plenitude, e não era apenas isso, Lei se sentia, também, mais forte do que seu mestre. Sabia que poderia tentar enfrentá-lo em breve. Tinha a juventude e o tempo ao seu lado e era sagaz o suficiente para esperar a hora certa.
Depois de muitas manhãs Lei se levanta e encontra seu mestre do lado de fora, olhando o sol nascendo e admirando os pássaros que cantavam em comemoração ao retorno do calor.

- É hora de partirmos Lei. Pegue suas coisas.

O mestre sorria para o jovem adulto. Lei pensou que talvez o mestre estivesse começando a respeitá-lo, ou melhor, a temê-lo. Por isso, talvez tentasse remediar as coisas para que a justiça dos deuses não fosse aplicada pelas mãos do seu aluno. Mas Lei não permitiria isso. O pesadelo da impiedosa história da vaca na colina ainda atormentava seu sono.


Dias de caminhada depois, Lei apenas ouvia a tagarelice do seu mestre contando sobre a paisagem, sobre as estradas repletas de pássaros e flores. Confessou que as flores sempre lhe foram uma paixão, especialmente as brancas que parecem uma penugem e esvoaçam ao menor movimento, espalhando suas sementes pelos campos.
No meio do caminho, um bando de assaltantes aparece de repente. Esse grupo está sem cavalos, mas parece ser em bem maior número do que o daquela vila, a tantos anos de andanças afastada.
Eles mandam os dois pararem e apenas o mestre obedece. O aluno se coloca corajosamente à frente e encara o suposto líder com arrogância.
Um dos homens pede ao mestre que lhe entregue seus pertences, o mestre sorri e, prontamente, começa a tirar sua bolsa das costas.
Lei não acredita no que vê e, numa questão de instantes, golpeia o ladrão diretamente na cabeça desprovida de cabelos, fazendo com que os dentes e a língua saltem e os olhos se esbugalhem para fora das órbitas. O corpo inerte do ladrão causa o grito de guerra dos bandidos que o acompanhavam. Lei, usando suas mãos desarmadas e seus pés descalços contra as espadas, foices e lanças dos seus inimigos, mata a todos.
O mestre apenas meneia a cabeça enquanto volta a guardar sua bolsa nas costas, e segue andando, desviando dos cadáveres dos assaltantes. Dezenas espalhados pela rua. Manchando as belas flores azuis que deviam ter acabado de florescer.

- Por que não fez nada?

- E para quê? Você se encarregou de tudo.

- E o que deveria ter feito, então?



- Você eu não sei, quanto a mim, não gosto de alimentar flores tão belas com sangue. Quem passar agora por aqui será assombrado por sentimentos de ódio, medo e vingança.

Lei nada responde. Apenas observa o sangue se acumulando e formando um rio em volta do caminho florido.
- Tudo o que você faz, ainda, é quebrar pedras e pedaços de madeira, Lei.

A terra vai ficando avermelhada enquanto absorve a espessa fonte vital dos homens mortos pelo rapaz.

- O caminho do aluno nunca é livre de erros. Somente a mim não cabe o luxo de cometer enganos. Venha. Precisamos enterrá-los.

Foram vários dias de caminhada em silêncio. Paradas em vilarejos novamente a procura de abrigo e comida, como sempre, em troca de trabalhos ou favores diversos. Lei, cada vez mais, se sentia caminhando ao lado de um estranho. Alguém cuja admiração já se perdera, principalmente, por causa de uma atitude bruta e ignorante contra uma família bondosa e inocente. Uma família vítima das circunstâncias do destino que teve um sofrimento derradeiro nas mãos do seu antigo mestre.
Há muito Lei já não mais se referia a ele como seu tutor. Aos poucos sentia que a hora da justiça dos deuses se aproximara, e, talvez tenha até tardado muito a chegar por hesitações covardes vindas do próprio rapaz. Quando eles entram em um campo aberto Lei se impressiona com a quantidade de flores espalhadas pela paisagem. A maior parte concentrada em uma área extensa, para onde o mestre começa a caminhar, seguido por Lei. Mais a frente Lei consegue ver uma casa aparentemente abandonada.

- Flores brancas. Feitas de penugem que voa ao menor vento. Perfeito.
O mestre tira sua bolsa das costas e se volta para Lei com um sorriso nos lábios.

- Um lugar perfeito para eu enterrar meu discípulo.

Lei fica petrificado com a declaração. Muitos pensamentos passam pela sua cabeça. Medo, insegurança. Mas Lei também aprendeu a controlar todos os sentimentos que atrapalham um guerreiro. Ele se esforça para focar seu verdadeiro inimigo, o qual se posiciona bem a sua frente, tendo uma faixa de sementes dos dentes-de-leão circundando seu corpo em uma espiral simbolizando a energia de seu espírito em sintonia com as flores.
O ex-aluno percebe o posicionamento do seu adversário e nota que ele pretende lutar com leveza, pois fica apoiado apenas em uma das pernas, talvez para não ferir as suas amadas flores.

- Se você ficar se preocupando com as flores, não vai conseguir me derrotar!

- Lei, Lei. Sempre avesso aos pequenos detalhes. Eu não conseguiria lutar em paz, se soubesse que iria machucar alguma flor tão delicada.


- COMO OUSA SE PREOCUPAR COM FLORES QUANDO ENTREGA PESSOAS INOCENTES À MORTE?

Lei arranca numa velocidade estupenda abrindo um caminho de nuvens de sementes flutuantes. O mestre o nota saltando por cima dele, numa investida bem parecida com a primeira, anos atrás.
O inimigo de Lei também salta e desfere o mesmo chute que outrora quebrou as costelas do seu ex-aluno, mas dessa vez o garoto estava preparado, gira o seu corpo no sentido contrário dando uma fortíssima cotovelada na direção do rosto do seu adversário, o qual, sem dificuldade alguma, defende usando somente alguns dedos.
Os dois caem ao chão. Lei meio desequilibrado. O ex-mestre totalmente centrado, usando apenas uma das pernas, tomando o cuidado de desviar dos delicados dentes-de-leão.
O forte oponente do jovem lutador salta na direção de Lei aproveitando que o garoto havia aberto uma clareira, onde não havia mais flores. Lei pula para trás sem saber ao certo o que ele pretendia. Porém o movimento não pára apenas com o salto. O grande homem desliza por cima das flores pisoteadas por Lei e estende uma das pernas numa velocidade fabulosa, alcançando o rapaz.
Lei percebe o golpe que seu antigo professor executaria, mas como ainda está saltando para trás, não tem muito que fazer.
Os braços do homem se posicionam rapidamente por baixo do próprio corpo e Lei consegue apenas ver as pernas dele ascendendo num ângulo reto, tendo o calcanhar esticado mirado no seu queixo.
Lei inclina a cabeça para trás. Ele precisava de apenas alguns milímetros para não ser decepado por aquele chute. Sim, Lei sabia que ele estava lutando a sério. Ele pôde apenas ver o pé do homem subir, quase resvalando no seu maxilar. Se tivesse acertado, não apenas seus dentes e os ossos do seu rosto teriam quebrado, sua cabeça inteira seria arrancada pelo golpe. Seguindo o chute, por pouco esquivado, Lei vê centenas de sementes da delicada flor subirem ao céu em um jato branco formado pelo vácuo.
Ele se recupera rapidamente e, enquanto o fantástico golpe do mestre ainda faz seu corpo subir, o aluno torce seu tronco para trás, gira, toma posição e, de imediato, transforma a força dos quadris em uma verdadeira alavanca que arremessa sua perna formando um chute frontal tão penetrante quanto uma lança.
Com o eixo ainda suspenso o mestre se surpreende com a rápida resposta de Lei e percebe que não é possível desviar do golpe dessa forma. Nota que ele desenvolveu uma forma de anular um dos seus mais poderosos movimentos. Tudo o que pode fazer é bloquear o golpe com um dos braços. O chute de Lei na direção do abdômen do seu ex-professor foi certeiro e efetivo. Seria mortal caso não fosse bloqueado, mas a defesa não foi suficiente para manter a enorme massa do mestre no lugar. Ele foi arremessado a muitos metros de distância pela força das pernas do rapaz. Lei não percebe, mas o mestre, enquanto tenta reencontrar seu ponto de equilibro antes de cair, esboça um sorriso de satisfação. O mestre cai novamente em pé usando apenas uma das pernas. O braço que defendeu o poderoso golpe de Lei está inutilizado e mesmo tendo se defendido de tamanha força, seqüelas internas começam a ser sentidas.

- Você se tornou muito forte Lei, preciso admitir.

Lei não demonstra contentamento com o elogio do seu inimigo. É a hora e vez de ele executar a justiça dos deuses. Os dois se posicionam e o vento volta a circular as sementes pelo ar. De uma maneira mais intensa agora, todas as pequenas penugens das flores começam a ser removidas e formam uma verdadeira nuvem. São tantas que fica até difícil Lei visualizar seu forte adversário. Era como se Lei estivesse preso em algum tipo de neblina.

- É bom prender sua respiração, meu pupilo. Se inalar muitas dessas sementes nascerá dentes-de-leão pela sua orelha.

- Não sou mais seu aluno! Se executar a justiça dos deuses e vingar os inocentes, então eu terei me tornado o mestre!

Lei tenta ouvir a resposta para conseguir localizar a posição daquele por quem já nutriu um sentimento puro, infantil e, naquela hora, tolo de paternidade.




- É engraçado ouvir isso de você Lei. Fico muito contente por ter chegado nesse estágio. Realmente não existe muita coisa que eu possa lhe ensinar agora. Se sair daqui vivo vai aprender o resto por si só.

Lei pensa ter ouvido a voz do mestre de determinada direção e lá desfere uma seqüência de socos.

- Mas deixe-me lhe ensinar uma última coisa. Um mestre está acima do certo e do errado. Bem e mal são ilusões, meu caro aprendiz. Quando se percebe os mecanismos da vida, a beleza da conseqüência de cada ação, aí sim se pode tomar verdadeiramente o julgo do que for necessário para trazer aos homens a justiça divina.

Lei se confunde, pois a voz parte de todos os lados ao mesmo tempo, e, de nenhum. Pensa que o inimigo pode estar usando de alguma artimanha macabra, e está escondido em algum local, pronto para desferir o golpe final.

- Enquanto você não quebrar o curso de um rio, você não terá se tornado um mestre.

Lei pára de se movimentar e tenta prestar atenção ao movimento turbulento das sementes. Por instantes ele fixa todos os seus sentidos no ambiente e tenta sentir o as ondulações que o vento impõe às milhares de partículas brancas.
Nesse instante Lei sente exatamente a direção e a velocidade de uma lufada de sementes se aproximando. Com isso é capaz de determinar que um golpe mortal vem em sua direção.
Sem necessitar dos olhos ele prepara o contragolpe, e a fração de segundos que separa a vida da morte de Lei é o suficiente para que toda sua vida passe em seqüência pela sua mente. Seus pais sendo mortos pelos salteadores, ele se refugiando por de baixo dos corpos amontoados para não ser transformado em escravo. O mestre lhe oferecendo proteção e levando-o consigo. Os cuidados, as brincadeiras, o riso, as broncas. A vaca sendo arremessada da colina. Quando o vento pára de soprar, as sementes começam a acumular pelo campo, prontas para germinar novamente ou para serem carregadas por outros ventos. Ventos diferentes. Vindos de outras direções.
O jovem e o velho se entreolham. Estão muito próximos um do outro. O braço do velho passou por entre o peito e a axila do rapaz. Por questão de milímetros novamente. Um desvio preciso contra a morte certa. O braço do jovem estava enterrado até a altura do punho para dentro do peito do velho. Próximo ao coração.
Enquanto o sangue escorre pela boca do antigo mestre de Lei, o garoto olha aterrorizado o semblante de ternura e de contentamento do seu pai adotivo.

- Posso pedir um último favor a você, meu garoto?

Lei não consegue reagir.

- Deixe meu corpo naquela cabana abandonada.

O velho mestre fecha seus olhos e continua.

- Foi lá que eu nasci e de lá saí quando pequeno em busca dos verdadeiros caminhos da vida. Finalmente estou de volta. Gostaria de ficar em casa agora que minha viagem acabou.

Lei, em silêncio, cumpre o último pedido de um homem. Deixa seu corpo dentro do casebre abandonado e não parte antes de olhar em volta e tentar entender aquela incompreensível figura.
Seu velho mestre está sorrindo. Uma expressão de paz torna tudo ainda mais confuso para o vencedor da batalha.



Enquanto a cabana é consumida pelo fogo, Lei deixa o local sem olhar para trás. Vai continuar seu caminho para se tornar um homem cada vez mais forte e um mestre respeitado e, mais importante, temido.
Lei Shao Khan, como ficou conhecido, espalhava o medo do seu nome por onde passasse. Mas o temor era sentido apenas pelos malfeitores, pois sua presença trazia alívio aos desafortunados. Ajudou diversas vilas a se livrarem de bandos de ladrões e assassinos.
Certa vez foi a um vilarejo próspero, um dos mais belos e justos por onde já passou. Lá foi acolhido diretamente pelo Senhor, um homem que Lei não reconhecera, mas que encontrou seu espírito novamente depois ter os olhos abertos por um antigo mestre, o qual, por ironia do destino, teve a audácia de lhe apontar a foice no rosto.
Por suas andanças Lei conheceu povos, cidades e até mesmo países de línguas diferentes. Pôde aperfeiçoar seu estilo de combate desarmado e adaptá-lo a diferentes situações.
Aprendeu sobre o amor e sobre as mulheres, criaturas mais incompreensíveis e misteriosas do que o seu esquecido instrutor.
Depois de passar por tantos lugares e situações Lei Shao Khan se sentia, de certa forma, realizado. Enfim pôde espalhar a justiça dos deuses por onde passasse, tendo o seu antigo mestre como a primeira vítima dessa punição divina, que deve ser executada por onde quer que caminhe.
Próximo a uma enorme fazenda repleta de animais, pessoas trabalhando, plantações, Lei resolve descansar sentando-se em uma pedra.
Ele olha o horizonte e tenta se questionar sobre o que queria dizer seu antigo mestre quando falava sobre “quebrar o curso de um rio”. Às vezes ele até desistia de querer pensar muito em seus ensinamentos, pois os considerava vazios, vindos de alguém que não tinha compaixão com quem realmente precisasse. Perdido em seus pensamentos Lei deixa um grande pedaço de carne seca, que estava tentando tirar da sua bolsa para comer, cair por trás do ombro. Quando Lei se vira ele vê o pedaço se espatifar em algumas pedras dezenas de metros abaixo. Ele nota que está em uma colina e se lembra, imediatamente, da vaca sendo arremessada.
Não é apenas a lembrança do animal que vem à sua mente, ele se lembra do mórbido local de onde o bicho foi arremessado. A colina.
Lei está em pé e percebe, enfim, que se trata exatamente da mesma colina na qual a fatídica e cruel ação do seu mestre passou a nutrir em si a fúria mortal pela injustiça contra os mais fracos.
Ele está atordoado porque não vê mais a casa apodrecida. No lugar uma bela entrada florida e um casarão bem construído. Do lado de fora dois velhos riem à mesa. Está acontecendo uma festa. Crianças correm de um lado ao outro. Alguns adultos tentam conter a energia dos filhos, mas os jovens sempre andam mais depressa, não é mesmo?
Lei reconhece os velhos, reconhece os pais das crianças. Passou-se muito tempo. Tempo demais. Tudo era tão belo. Tantas flores. A plantação se perdia da vista, talvez quilômetros ao longe. Centenas de animais pastam livremente. À mesa, muita comida, muita gente. Todos rindo. Felizes.

- Ei! Tem um viajante no alto da colina.

- Rapaz, desça daí! É perigoso!

- É! Nossa vaca caiu daí uma vez!

- Nossa! Você se lembra disso? Faz tanto tempo.

O velho patriarca se mete na conversa.

- Sim, não há como esquecer. O que parecia ser a maior das desgraças aconteceu no mesmo dia da morte da sua irmã mais nova. O nosso animal se sacrificou para mostrar-nos o quanto éramos culpados por nossa situação. Deve ter recebido a ordem dos próprios deuses.


Os jovens filhos, genros e noras ficam em silêncio, escutando o pai falar. Os netos também, bem, pelos menos os que não estavam correndo.

- Éramos tão cegos pela derrota que se aquele viajante comilão não tivesse acabado com o que havia restado do leite, provavelmente teríamos tomado uma gota dele por dia té sucumbirmos em nossa própria miséria. Mas...

O velho se levanta acompanhado de sua mulher também idosa.

- Hoje o dia é de festa! A colheita foi muito boa! Vamos comemorar! Chamem o viajante para dividir a mesa conosco.

- Oh, andarilho! Venha se juntar a nós! Tem muita comida!

Se a perplexidade tem um rosto este está estampado em Lei Shao Khan. A transformação ocorrida ali não poderia ter sido orquestrada pelo seu mestre! Seria inumano demais a mão de um deus operando a vida das pessoas.

“- Saiba que a justiça e o desígnio dos deuses deve vir aos homens através das mãos dos mestres...”

''- Enquanto você não quebrar o curso de um rio, você não terá se tornado um mestre.”

“- Lei, se você conseguisse quebrar o curso de um rio, eu ficaria verdadeiramente surpreso.”

Enquanto a mente confusa de Lei tenta se reordenar uma lufada de vento traz, de longínqua distância, algumas sementes de dente-de-leão que passam pela frente do seu rosto fazendo Lei se virar em direção do íngreme desfiladeiro.
- SEU IDIOTA!

Lei, depois de muitos anos, sente as lágrimas novamente molharem seu rosto. O eco reverbera devolvendo o grito de ofensa ao próprio homem.

- POR QUE NÃO ME CONTOU?! EU TERIA COMPREENDIDO! EU TERIA!

Lei se ajoelha nas pedras e a tristeza, oriunda da percepção de um ato de ignorância frente à sabedoria de alguém inalcançável, torna o gosto das lágrimas ainda mais amargo.
Nessa hora a presença de uma enorme quantidade de sementes daquela flor branca sensível ao menor toque vagueia pelo desfiladeiro da colina, anunciando que novos ventos, ventos vindos de outras direções, sempre sopram. Talvez nunca saibamos sua origem ou seu destino.
Seu mestre nunca o decepcionara. Ele poderia continuar amando-o na mais profunda e completa inocência.
Lei se levanta e começa a descer o terreno verde, repleto de flores coloridas, que enchem de vida o que já fora um lamaçal de miséria, morte e desgraça.
Enquanto os moradores acenam e se dirigem para receber o viajante, Lei enxuga suas lágrimas e corre sorridente. Acompanhado pelas insistentes, leves e, admiravelmente, belas sementes de dente-de-leão.
Esses deuses caprichosos...

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