19 de jan de 2009

Conto: Ato de Caridade

Foi muito rápido, o caminhão apareceu do nada na estrada e eu só me lembro de guinar o volante com violência. Um clarão súbito e aqui estou. Sinto com perfeição a textura do lençol abaixo do meu corpo. Acho que visto algum tipo de avental. Estou respirando mas não é por vontade própria, é como se enfiassem ar dentro dos meus pulmões. Nenhum músculo meu se contrai a meu comando, por mais que eu tente. Não consigo falar, me mexer, abrir os olhos ou me expressar de qualquer maneira. Estou em algum ambiente iluminado pois percebo, além da pele das minhas pálpebras fechadas, grandes focos de luz perto de mim. Vejo vultos que passam na frente deles e ouço sua conversa. Ouço tudo muito bem.

"Ela está praticamente intacta, não fosse o cérebro". "Sofreu um corte na medula e uma concussão severa", "Parece não responder aos estímulos, entrou em processo de morte cerebral".

Como morte cerebral? Estou aqui pensando! Só não consigo mostrar isso. Senti-me aliviada quando alguém abriu meus olhos. Doeu um pouco o feixe de luz bem dentro da minha pupila, mas não consegui fechá-los novamente. Continuaram abertos, se acostumando com a luz até reconhecer uma equipe médica que corria de um lado para outro dentro da UTI de algum hospital.

"Acharam os documentos dela? Liguem para a família!", "Marcos, limpe a moça, troque-a e leve-a para a sala isolada no centro cirúrgico".

Talvez fossem me operar. Tentar descobrir porque é que eu não respondo ao mundo exterior. Será que isso é o coma? Ou é algo mais complexo? Dor? Sinto e muita. Depois do susto sinto cada pedaço do meu pé que quebrou, o pulsar incessante de dor que me avisa de que algo está errado no meu corpo. O respirar que a máquina me obriga a fazer me faz sentir as costelas cortando a carne dentro do meu peito. Os trancos que o enfermeiro dá na maca também me fazem sentir os braços e as costas doloridos. Não sei como eles não captam meus sinais, é tudo tão intenso. Horrivelmente intenso.

Meus olhos estão fixos no enfermeiro que fecha a porta atrás dele e acende as luzes de um quarto gélido e solitário. Ele meche em algum mecanismo que destrava meu colchão e ele coloca meu corpo sobre uma mesa fria. Ele tira minha roupa e eu só consigo perceber seu olhar nas vezes em que passa os rosto perto do alcance do meu olhar fixo.

Os tubos do aparelho que mantém meu respirar ainda estão ligados a mim, assim consigo ver o único movimento que meu corpo faz, o de inspiração e expiração a inflar e murchar meu peito. O peito que o enfermeiro se demora na hora de passar uma bucha com sabão. Agora ele nem bucha usa mais, ele esfrega e aperta com força os meus seios, como se eu não sentisse isso.

Queria gritar, chutar o saco desse filha da puta. Morder e arrancar essa orelha fedida quando ele começa a passar o rosto no meu peito e a beijar meu pescoço.

"Não vai dizer nada né sua vadia? Eu sei que não vai! Pode esperar, isso vai demorar muito!"

Ele abriu minhas pernas com força, elas cederam como se eu estivesse morta. Senti os ossos estalando e a musculatura enrijecida pelas horas imóveis. A dor foi tanta que senti meu coração acelerar. Podia vê-lo pulando no meu peito. O desgraçado me violentou olhando nos meus olhos estáticos. Depois ele saiu e entrou com seus colegas, que se aproveitaram do meu estado para conseguir o que nunca conseguiriam de mim em situações normais.

Nojentos! Sujos! Porcos miseráveis! Quando eu saísse dali eles iriam apodrecer para sempre na cadeia! Melhor, eu seria capaz de matá-los com minhas próprias mãos tanto ódio que eu senti. Tamanha dor que me causaram, tamanha vergonha a que me sujeitaram.

"Como ela está quente! Nem parece que está morrendo","É muito melhor fuder uma assim do que as que já morreram", "Ainda bem que me transferiram pra cá! As do necrotério são muito frígidas! Há,há, há!"

Não sei dizer quanto tempo aquilo durou. Depois me vestiram novamente e tentaram fechar meus olhos, mas minhas pálpebras não cediam. Eu não queria que elas cedessem, precisava encarar esses miseráveis e marcar bem seus rostos. Isso não ficaria assim.

Me levaram a outra sala, melhor iluminada. Minha visão começou a ficar turva porque o ardor dos olhos abertos abertos começou a dar lugar a uma angústia incontrolável de não conseguir fechá-los para que não secassem, isso fazia lágrimas escorrerem pelos cantos, podia sentir.

“Ei, vamos lubrificar esses olhos, as pálpebras não se fecham”. Uns instantes de alívio, até que percebi que colocaram algum tipo de tubo que passou a pingar um líquido de tempos em tempos. Horas se passaram até que comecei a ouvir pessoas chorando. Alguém chegou do meu lado. Era a minha mãe. Eu queria dizer para ela que estava tudo bem, que era para que parasse de chorar, mas, ainda não era capaz de reagir. Ela apertou a minha mão, eu pude sentir seu calor e a tremedeira, entregando o seu estado de nervos. Engraçado é que eu deveria estar tremendo também, pois aquele enfermeiro miserável foi consolar minha mãe. Eu daria tudo para enfiar uma faca na garganta desse cretino, mas nada do meu corpo responder à minha mente. Meu pai afastou-a de perto de mim, ele também estava chorando. Pude ouvir o lamento deles: “Coitadinha, ela só tem vinte anos”,”Acabou de se formar”,”Ela é tão linda”,”Oh, minha filha”.

Depois, o silêncio.

O gotejar do colírio não parava e foi única coisa que eu escutei por muito tempo. Não sentia sono ou cansaço, e me corpo parecia formigar, principalmente nas regiões onde mais sentia dor, até que eles apareceram novamente. Todos que conseguia ver estavam de máscara, se preparavam para alguma coisa. Muito provavelmente para me operar.

“O que os exames dizem?”,”Confirmam, doutor”,”Dupla confirmação?”,”Tripla”. “Certo, injetem 20ml de adrenalina para não corrermos o risco da circulação parar durante a operação”.

Conectaram uns fios no meu peito e a máquina passou a acompanhar meus batimentos cardíacos, fazendo aquele “bip” tão característico. Vi e senti aplicarem uma injeção bem no meu tórax.

“Vamos começar extraindo as córneas, antes que se danifiquem. Quem abriu os olhos da moça?”

Meu coração acelerou e pude ouvir os “bips” ficando cada vez mais rápidos.

“Toda vez que eu faço isso eu fico pensando no que eles sentem”,”Ele não sentem nada, o cérebro morreu.”,”O coração acelerou!”,”Foi a adrenalina, querida, agora me dê o bisturi, essa moça vai ajudar a muita gente em seu último ato de caridade.”

2 comentários:

  1. Legal o seu conto. Não assusta tanto, mas sai da rotina de "fantasmas voltam com assuntos inacabados". Gostei bastante.
    Abraços

    ResponderExcluir
  2. Valew Rick!
    É, eu queria mesmo dar uma escapada do ambiente "sobrenatural" da coisa e me calgar am algo mais verossímel, afinal, quem pode garantir o que sente que tem esse suposto quadro de "morte cerebral"? Mal conhecemos nossos estados normais de consciência, imagine os alterados.... O.o

    ResponderExcluir